A Igreja pode ser a voz dos indefesos, diz professora que combate o abuso sexual infantil

Durante a campanha do 'Maio Laranja', o projeto Protegendo com Amor está conscientizando as igrejas sobre o combate ao abuso sexual.


Durante o período da campanha 'Maio Laranja', o projeto "Protegendo com Amor" está passando pelas igrejas para conscientizar sobre o combate ao abuso sexual infantil. (Foto: Divulgação)
Como já é do conhecimento de muitos, maio é o mês da Família e não há momento mais oportuno para reforçar a conscientização sobre uma causa antiga, porém ainda cada vez mais flagrante: o abuso sexual infantil.

Por isso, o projeto ‘Protegendo com Amor’ está aproveitando a campanha do ‘Maio Laranja’ para alertar a sociedade e contando com a parceria de igrejas de todo o país para unir forças e combater esse mal.
Em entrevista exclusiva ao Portal Guiame, a líder e fundadora do projeto, psicopedagoga e especialista em violência doméstica, Miriam de Oliveira Dias, falou sobre o papel da igreja nessa causa tão relevante, as formas como as famílias podem se prevenir e também sobre o combate ao abuso em tempos de pandemia.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Portal Guiame: Maio Laranja é o período que busca conscientizar sobre o combate contra o abuso sexual infantil. Como as igrejas podem apoiar efetivamente o projeto "Protegendo com Amor"?

Miriam de Oliveira Dias: A responsabilidade de proteger meninos e meninas contra crimes como o abuso e a exploração sexuais não é apenas do Estado ou da família, mas de todos nós. Este dever está previsto na Constituição Brasileira. E a igreja como sociedade pode cumprir esse papel. É preciso garantir a todas crianças e adolescentes o direito ao seu desenvolvimento de forma segura e protegida, livres do abuso e da exploração sexual.

A igreja pode abrir espaço para essa conversa com a sociedade, conscientizando as pessoas para combater o abuso sexual infantil, um problema que cresce a cada dia. Ela também pode apoiar a Campanha, quando mobiliza, sensibiliza, informa e convoca toda a sociedade a participar da luta em defesa dos direitos da crianças e dos adolescentes. A igreja pode ser a voz daqueles que não podem defender-se.

​A prevenção à violência contra a criança e o adolescente é de extrema importância na sociedade. E esse trabalho pode ser realizado através de palestras, orientações, rodas de conversas com todos os que estão envolvidos no dia a dia com a criança, e deverão ser realizadas campanhas educativas e preventivas para que as crianças aprendam a lidar com alguma situação difícil de abuso.

Guiame: O número de casos de abusos dentro do lar continua a assustar e deixar famílias alarmadas. Qual a melhor ação a ser tomada pela família ao saber que houve uma ocorrência no círculo familiar?

Miriam Dias: Dados do Disque 100 mostram que, só no ano passado, aumentaram os números de abusos. Mais de 70% dos casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes são praticados por pais, mães, padrastos ou outros parentes das vítimas. Em mais de 70% dos registros, a violência foi cometida na casa do abusador ou da vítima.

Quando se percebe que a violência sexual está acontecendo dentro do círculo familiar, muitas vezes dentro de nossas casas temos que tomar alguma ação, embora não seja fácil.

A decisão de agir em defesa da criança e adolescente é corajosa e importante.Mas é necessário denunciar, procurar um conselho tutelar de sua cidade, o Disque 100 ou a Delegacia de Proteção à Criança e o Adolescente (DPCA). O dever da família é proteger essa criança.

Guiame: E quanto à igreja, como a instituição cristã pode acolher essa criança e essa família?
Miriam Dias: Com certeza, a igreja pode dar assistência, acolher as famílias, encaminhá-las a profissionais como: psicólogos, assistentes sociais, entre outros e dar à criança a oportunidade de acesso a uma Escuta Especializada, que é prevista na Lei n° 13.431/2017, que passou a vigorar em 5 de abril de 2018 (Lei da Escuta Protegida). Essa lei estabelece o sistema de garantia de direitos da 
criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência, que é feito pela pela rede de proteção.

Guiame: Em casos de abuso, uma questão que dificulta o combate é justamente o silêncio. Como o projeto "Protegendo com Amor" pode combater esse silêncio nocivo, enquanto tenta preservar a vítima de abuso?

Miriam Dias: Uma das ações do Projeto é orientar os pais, professores e as próprias crianças através de conversas, histórias, brincadeiras de uma forma lúdica, a falarem sobre suas emoções, criar mecanismos para que elas conheçam e saibam proteger o próprio corpo e saibam identificar quando há algo de errado e como elas podem buscar ajuda.

Sempre damos algumas dicas que podem ajudar a proteger o seu filho contra essa violência. As crianças precisam saber conhecer e nomear corretamente as partes do corpo e identificar o que é íntimo; que ninguém poderá tocar nessas regiões e nem vê-las, apenas os pais, quando forem dar banho ou trocar de roupa. Sendo assim, elas podem relatar aos pais quando algo fora do comum acontecer.

Ensinamos à criança que ela precisa ter um adulto de confiança que possam procurar e contar se algo estiver acontecendo. Caso não sejam seus pais, têm de procurar alguém.

Quando há suspeita de violência sexual, é importante acionar uma das instituições que atuam no enfrentamento [ao abuso] e atendimento à vítima e suas famílias: Conselhos Tutelares, Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) entre outros.

Guiame: Nestes tempos que a sociedade como um todo tenta superar uma pandemia e se isola em suas casas, houve um aumento nos casos de abuso sexual infantil. Qual conselho você daria às famílias para evitarem estas ocorrências?

Miriam Dias: É importante, nesse período dar apoio aos pais, mães e responsáveis para que consigam lidar com o estresse que esse isolamento causa, e também acolham seus filhos, procurando criar um ambiente seguro, de amor e de afeto em casa.

Vale lembrar que: xingar, humilhar e praticar castigos físicos, como bater, são formas de violência. Por isso, toda população esteja atenta e conheça os canais de denúncia para qualquer situação de violência contra crianças e adolescentes.

Caso você testemunhe (ou apenas suspeite) que alguma criança ou adolescente está sendo vítima de negligência, violência, exploração ou abuso, não se cale e denuncie.
No Disque 100 as ligações são gratuitas e você não precisa se identificar.
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