Argélia fecha igrejas protestantes enquanto cristãos são empurrados para a clandestinidade

 

O pastor Youssef Ourahmane, convertido ao cristianismo e pastor da Igreja Protestante da Argélia, foi preso em 2024 e condenado a multas pesadas e prisão pelo chamado crime de "culto ilegal" por liderar sua igreja. ADF Internacional

Quase todas as igrejas protestantes na Argélia foram forçadas a fechar, empurrando milhares de cristãos para residências particulares e encontros informais, enquanto as autoridades apertam o controle sobre cultos não muçulmanos.

Os fechamentos, que são sistemáticos desde 2017, não são incidentes isolados, mas fazem parte do que um relatório de 2026 do Centro Europeu de Direito e Justiça (ECLJ) descreve como "um sistema legal e administrativo restritivo incompatível com padrões internacionais sobre liberdade religiosa."

O relatório documenta o que chama de crescente abismo entre as garantias constitucionais da Argélia e a realidade vivida de sua minoria cristã.

Desde 2006, pelo menos 58 igrejas protestantes foram fechadas pelas autoridades, incluindo quase todas aquelas afiliadas à Igreja Protestante da Argélia (EPA). Em janeiro de 2025, as últimas igrejas evangélicas remanescentes haviam efetivamente cessado suas operações.

O resultado é uma transformação silenciosa, porém abrangente, da vida cristã. As reuniões de oração agora acontecem em residências particulares, espaços improvisados ou ao ar livre. Alguns crentes se reúnem no que o relatório descreve como "igrejas domésticas", enquanto outros se reúnem em áreas remotas, "igrejas sob oliveiras".

"Tentamos viver nossa camaradagem da melhor forma possível; o mais importante é estarmos juntos", disse um representante da EPA em depoimento citado pelo relatório.

A lei argelina exige que o culto não muçulmano seja autorizado pelo Estado, mas cristãos dizem que tais aprovações raramente são concedidas.

De acordo com uma portaria de 2006, qualquer atividade religiosa deve ocorrer em prédios oficialmente aprovados, enquanto uma lei de 2012 exige que associações religiosas se registrem junto às autoridades, um processo que, segundo críticos, foi efetivamente bloqueado.

"Na prática, as autoridades argelinas recusaram todos os pedidos para a abertura de novos locais de culto", afirma o relatório.

Sem reconhecimento legal, até pequenas reuniões podem ser consideradas violações.

Pastores e fiéis enfrentaram processos por realizar cultos sem autorização, enquanto batidas policiais em reuniões de oração levaram a detenções e interrogatórios.

Em um caso recente, um grupo de cristãos foi detido por horas após uma reunião religiosa, ressaltando os riscos associados ao culto comunitário.

Além das restrições ao culto, o relatório destaca leis que criminalizam certas formas de expressão religiosa.

A legislação argelina torna crime "minar a fé de um muçulmano" ou tentar converter muçulmanos, com penalidades que incluem penas de prisão e multas. O escopo dessas disposições é amplo.

"Qualquer expressão de fé cristã pode ser considerada uma tentativa de 'minar a fé de um muçulmano'... e pode resultar em processo", observa o relatório.

As autoridades usaram essas leis para perseguir casos envolvendo postagens em redes sociais, distribuição de materiais religiosos e discussões públicas sobre o cristianismo.

Cristãos frequentemente evitam exibir símbolos religiosos ou falar abertamente sobre suas crenças, temendo consequências legais ou reações sociais.

Comunidade cristã subterrânea em crescimento

Apesar das restrições crescentes, a população cristã da Argélia cresceu nas últimas décadas, especialmente entre os protestantes evangélicos.

A comunidade agora conta com cerca de 156.000 pessoas, ou cerca de 0,3% da população, segundo dados citados no relatório.

Grande parte desse crescimento ocorreu na Cabilia, uma região com uma identidade cultural distinta e uma história de diversidade religiosa.

"O tecido social foi danificado durante a guerra civil, tornando o terreno fértil para mudanças religiosas", diz a historiadora Karima Dirèche no relatório.

No entanto, esse crescimento ocorreu em grande parte fora das estruturas oficiais, à medida que as igrejas perdem status legal e visibilidade pública.

Convertidos do islamismo ao cristianismo enfrentam desafios particulares. Embora a conversão não seja explicitamente proibida, ela é amplamente percebida como um desafio à ordem religiosa e social da Argélia. O relatório observa que os convertidos podem enfrentar pressão tanto das autoridades quanto de suas comunidades. Cristãos frequentemente enfrentam discriminação dentro dos sistemas legais e sociais que assumem que todos os cidadãos são muçulmanos.

Em todo o Norte da África, os governos geralmente garantem a liberdade de culto enquanto mantêm uma forte supervisão da vida religiosa.

Na Tunísia, a constituição protege a liberdade de crença, mas o proselitismo permanece sensível e os convertidos podem enfrentar pressão social. No Marrocos, o Estado permite atividades cristãs limitadas, mas restringe os esforços para converter muçulmanos e monitora de perto grupos religiosos.

A Argélia, no entanto, se destaca pela escala da fiscalização. O fechamento generalizado de igrejas protestantes e o uso consistente de disposições legais contra cultos não registrados criaram um dos ambientes mais restritivos para os cristãos da região.

A Argélia ratificou acordos internacionais que protegem a liberdade religiosa, mas o relatório afirma que esses compromissos não foram totalmente cumpridos.

As reações dos organismos internacionais têm sido "em grande parte simbólicas e não vinculativas", permitindo que a situação persista.

A questão atraiu uma nova atenção global nas últimas semanas, após uma histórica visita papal ao país, que destacou a herança cristã da Argélia e enfatizou o diálogo inter-religioso.

Mas, no terreno, pouco mudou.

Para muitos cristãos na Argélia, a vida religiosa agora se desenrola além da vista pública. Sem acesso a locais de culto reconhecidos e sob risco de consequências legais, os crentes se adaptaram formando comunidades descentralizadas, muitas vezes discretas.

O relatório conclui que as pressões enfrentadas pelos cristãos não são incidentais, mas sistêmicas.

"A opressão dos cristãos na Argélia não pode ser entendida como uma série de incidentes isolados", afirma, "mas sim como resultado de um sistema legal e administrativo restritivo."

À medida que a atenção internacional cresce, o futuro da liberdade religiosa na Argélia permanece incerto e, para muitos crentes, cada vez mais privado.

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